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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Um lugar teológico especial: a Terra

"Quem somos nós, estes que a mãe terra parece ter gerado para sua perdição?". Esse é o questionamento de Luiz Carlos Susin, secretário executivo do Fórum Mundial Teologia e Libertação (FMTL), frei capuchinho e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

Segundo Susin, que também é professor na PUC-RS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), em Porto Alegre, afirma que "as velhas questões entre Igreja e Estado, entre fé e ciência, entre mundo religioso e mundo secular, tornam-se pequenas diante desta Grande Questão".

Eis o artigo.

Tanto o Ffórum Social Mundial como o Fórum Mundial de Teologia e Libertação acontecem neste ano de 2009 na região pan-amazônica, em Belém do Pará. Isso tem um significado especial para ambos os Fóruns: é uma região extremamente e urgentemente significativa para a continuidade da vida no planeta Terra. Evidentemente, não de forma isolada. Mas por sua biodiversidade e por sua concentração de riquezas vitais, e pelas sociedades e movimentos sociais que na região buscam integração justa com as outras formas de vida, a Amazônia é o "Rubicão", o símbolo da decisão pela vida ou pela morte. Ora, isso não é apenas um acontecimento social ou político ou cultural ou mesmo biológico, é algo que tem a ver com Deus mesmo. É uma questão profundamente teológica.

Há mais tempo teólogos e teólogas se esforçam por entender este sinal dos tempos, este decisivo “lugar teológico”, onde a teodicéia enfrenta a pergunta crucial: a última palavra será da morte sobre a terra? Onde está o Deus Criador e Redentor? Onde está a possibilidade de Reconciliação que inclua todas as criaturas? Como fica a afirmação dolorosa, mas também esperançosa, de Paulo: “A criação foi submetida à vaidade – não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu – na esperança de ela também ser liberta da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8, 20-23).

Apocalipse Now – agora! Esta sensação de ameaça global que pesa cada vez com mais rapidez sobre nós diante da precipitação das mudanças climáticas, do excesso de lixo e poluição em todos os sentidos, da crise de recursos e de energia, isso que já se tornou um refrão incômodo que nos martela, seria um apocalipse sem o Filho do Homem, sem o Anjo que abre os selos da história, sem a Mulher que gera e salva a vida gerada? Sem uma Nova Jerusalém, sem Novos Céus e Nova Terra? Estamos diante de um desafio tremendo para a esperança humana e para as afirmações da escatologia bíblica e cristã que chega até a fé na criação divina: Somos criação divina de um Deus que leva a bom termo a sua criação?

É isso mesmo que o Fórum de Belém quer se colocar como horizonte de discussões teológicas. Há nessa crise um fundo antropológico: quem somos nós, estes que a mãe terra parece ter gerado para sua perdição? Afinal, diversamente de crenças anteriores, sabemos que é o ser humano que está destruindo rapidamente as condições de vida sobre a terra. As velhas questões entre Igreja e Estado, entre fé e ciência, entre mundo religioso e mundo secular, tornam-se pequenas diante desta Grande Questão. Ora, tanto pelo seu lado de questão como pelos recursos, verdadeiros tesouros, que se apresentam através de uma nova visão do mundo desde a espiritualidade, a Terra se torna hoje um grande e privilegiado “lugar teológico”. Nos sinais que temos há provocação profética e há revelação divina. Sobre nós pesa um juízo, é verdade, mas também ressoa um grito maternal de misericórdia e de chamada à ressurreição.

Ressurreição, essa palavra central da fé cristã, diz respeito aos corpos, à sensibilidade, às relações e até aos desejos, mas de forma divinamente transfigurados. Se somente a ressurreição pode nos salvar realmente, salvando-nos com o corpo vivido, com a sensibilidade e os abraços dados, somente a ressurreição em conjunto com a Terra, com os corpos das outras criaturas, com outras formas de vida, pode ser real ressurreição. Ficou famosa a afirmação do chefe índio Seathl, da tribo Suwamish, em 1855: “Seja o que for que aconteça aos animais e plantas, acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. O que suceder à terá sucederá também com os filhos da terra”. Nisso o índio que enfrentou o governo americano estava do lado da afirmação de São Paulo, ainda que dito de outra forma: a injustiça humana se torna injustiça para com a Terra e a injustiça para com a Terra se torna injustiça humana.

A alma humana está encravada na terra, de tal forma que poderíamos também ler de outra forma a afirmação de Jesus: que adianta ao homem querer salvar sua alma se vier a perder a Terra? Almas sem corpos e sem um lugar terreno para habitar são fantasmas inquietos e desejos sem repouso. Mas a Terra aonde até Deus veio habitar é realmente um lugar teológico privilegiado que hoje dá o que pensar mais do que em todas as épocas anteriores da humanidade. Pode um fórum dar conta disso?

Extraído de http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=19422 acesso em 23 Jan. 2009.

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